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A POLÍTICA DO MESTRE GRAÇA


Passadas mais de seis décadas de sua morte, a obra e a vida de Graciliano Ramos nunca foram tão atuais. Um exemplo de gestor público, pautado pela honestidade, o romancista alagoano foi para a política local um suspiro de esperança numa terra afeita à corrupção, cujo exemplo mais recente são as denúncias de irregularidades na folha de pagamentos da Assembleia Legislativa (ALE), que somam mais de R$ 7 milhões. Por isso, nada mais oportuno do que revisitar a trajetória do escritor enquanto gestor da máquina pública e os ensinamentos deixados por ele aos que hoje estão à frente dela

Por Francisco Ribeiro

Na sede da prefeitura de Palmeira dos Índios, cidade onde Graciliano Ramos (1892-1953) viveu parte de sua vida, encontramos, na sala principal, uma galeria de retratos em preto e branco dos ex-prefeitos da cidade. Numa das fotos, preservada com uma moldura de madeira simples, vemos Graciliano Ramos de Oliveira, o 13º a gerir o município, num único mandato, iniciado em 7 de janeiro de 1927 e encerrado no dia 10 de abril de 1930.

   Naquela época, mestre Graça – como era chamado pelos amigos – escrevia artigos para o jornal O Índio, de Palmeira dos Índios. Em alguns deles, que foram reunidos na obra Garranchos, organizada por Thiago Mio Salla e lançada pela editora Record, Graciliano já imprimia sua opinião sobre problemas sociais e de outra ordem, ao tecer críticas contra os assassinos precoces, os altos índices de analfabetismo que assolavam a cidade e até mesmo a derrubada indiscriminada de árvores.

   Empossado no cargo de prefeito aos 35 anos, Graciliano teve sua candidatura lançada pelo deputado federal Álvaro Paes e pelos irmãos Francisco e Otávio Cavalcanti. O trio liderava o Partido Democrata local. Outros fatores foram determinantes para seu ingresso na vida política, como um crime político ocorrido na cidade e a provocação de integrantes do Partido Conservador, que espalhavam boatos de que Graciliano teria medo de fracassar na função.


Escritor alagoano Graciliano Ramos (Foto: Divulgação)

   Sem participar de campanhas políticas ou fazer promessas, concorreu a eleição e venceu com 433 votos. “Fui eleito naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando”, contou ele, em entrevista à Revista do Globo, em 1948.

   “É preciso lembrar que, nas poucas vezes em que Graciliano Ramos ocupou cargos políticos, exerceu-os com tamanha lisura que, até os nossos dias, sua conduta honesta e correta na administração da coisa pública surgem, na imprensa do nosso país, como referência e exemplo”, afirma sua neta, Elizabeth Ramos, professora do curso de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

RELATÓRIOS
No período em que passou à frente da prefeitura de Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos prestou contas de seu mandato por meio de dois relatórios, datados de 1929 e 1930. Ambos foram enviados ao governador do Estado e publicados no Diário Oficial do Estado. Escritos numa linguagem inusitada para textos dessa natureza, em especial, pela ironia e o tom coloquial contidos neles, os documentos tiveram repercussão nacional.

   No primeiro texto, ele se refere aos gastos inúteis com telegramas: “Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1558 dom Pero Fernandes Sardinha foi comido pelos caetés”.

   Em outra passagem, censura o modo de gestão municipal, e que ainda hoje continua atual: “Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante de Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com prefeitos coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam”.

   Graciliano critica também o número de cargos comissionados na prefeitura. Alguns funcionários, segundo ele, pouco contribuíam para a execução das atividades burocráticas do órgão. Sendo assim, reduziu a quantidade desses funcionários em sua gestão. Um exemplo de conduta à frente da máquina pública, mas que hoje parece ter caído em desuso. Haja vista que as denúncias feitas pelo atual deputado João Henrique Caldas, o JHC (SDD), em julho de 2012, apontam que a Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE) já gastou, só em comissionados, mais de R$ 7 milhões. 

Fachada da Prefeitura de Palmeira dos Índios, que hoje tem 1.992 funcionários; na época de Graciliano, eram apenas 11 (Foto: Divulgação)

   Ao suspeitar de irregularidades durante seu mandato, Graciliano agiu de maneira irredutível. Um dos casos mais emblemáticos foi quando demitiu seu secretário de Finanças ao desconfiar de sua lisura no cuidado das contas do município. Só que o tal secretário era irmão do vice-prefeito, que prontamente foi até Graciliano reclamar da situação e dizer que, se o irmão saísse, ele sairia também. O escritor não se abalou. Decidido, continuou a governar sem vice-prefeito.

   Com comentários em vários jornais do país e, às vezes, transcrições na íntegra dos relatórios da sua gestão em alguns deles, o romancista alagoano confessou ao jornalista e escritor Homero Senna a surpresa que tivera ao saber da notoriedade que os relatórios alcançaram: “Apenas porque a linguagem não era a habitualmente usada em trabalhos dessa natureza, e porque neles eu dava às coisas seus verdadeiros nomes, causaram um escarcéu medonho. O primeiro teve repercussão que me surpreendeu. Foi comentado no Brasil inteiro”.

   Numa dessas transcrições, o texto chega ao conhecimento do poeta Augusto Frederico Schmidt, dono da editora Schmidt. Admirado com a qualidade da escrita, o editor investiga se o alagoano não teria textos na “gaveta” e se oferece para publicar o primeiro romance de Graciliano, Caetés, o que só ocorre em 1933, três anos após lhe enviar os originais, pois Schmidt havia esquecido os originais no bolso de sua capa de chuva e não conseguia encontrá-los.

   Para a escritora alagoana e professora aposentada do curso de Letras da Universidade Federal de Alagoas, Vera Romariz, estudiosa dos relatórios de Graciliano, os documentos já traziam elementos que apontavam para a construção de uma obra autoral. “Ele propõe uma grande crítica às instituições que não conseguem desempenhar seu papel público.  Obviamente, os resultados dessa análise seriam documentos bastante diferenciados, pois, para ele, essa tarefa não é uma simples ação burocrática, na qual seria engolido pela convenção ortográfica. É através de ambos os relatos que Graciliano dá o pontapé inicial para a construção de uma obra autoral em que linguagem e reflexão sobre o poder são permanentes”, analisa.

   Ainda segundo Vera, o comprometimento com o social está presente em toda a obra de Graciliano, em especial, nos relatórios. “O homem, o ser político, não necessariamente partidário, comprometido com o público, já está presente nesses textos. Lendo atentamente, verificamos que ele faz uma crítica ao estado burocrático por não cuidar das pessoas menos favorecidas. A única atuação política de forma direta é como prefeito. No entanto, ele mesmo reconhece que não foi bem. Não era o lugar dele. O escritor luta com palavras”, pontua. 


Escritora alagoana e professora Vera Romariz (Foto: Michel Rios)

A PRISÃO
Em 1930, Graciliano Ramos aceita o convite do então governador de Alagoas, o amigo Álvaro Paes, para dirigir a Imprensa Oficial do Estado, em Maceió, que, muitos anos depois, receberia seu nome como homenagem. Para isso, ele renunciou à prefeitura, vendeu a loja que herdou do pai e partiu com a família para a capital. “Com a revolução, quis demitir-me, mas não pude. E lá fiquei até dezembro de 1931. Não suportando os interventores militares que por lá andaram, larguei o cargo e voltei para Palmeira dos Índios, onde, numa sacristia, fiz São Bernardo”, contou ele.

Pouco tempo depois, recebeu um convite do interventor Afonso de Carvalho para assumir a direção da Instrução Pública do Estado - órgão equivalente à Secretaria de Educação hoje -, retornando a Maceió em 1933. Nesse mesmo ano, seu primeiro romance é publicado e recebe elogios da crítica. “Caetés é um belíssimo trabalho, dos que mais me têm deliciado nestes Brasis”, escreve o crítico Agripino Grieco, no periódico carioca O Jornal.

   Antes de terminar o seu terceiro livro, Angústia, o escritor alagoano é preso sem acusação formal no dia 3 de março de 1936. Levado primeiro para Recife e depois para o Rio de Janeiro, ele permaneceu detido na Casa de Detenção, junto a presos políticos, e na Ilha Grande, junto a presos comuns, até ser libertado em 13 de janeiro de 1937. Anos depois, ao ser questionado sobre a provável causa de sua detenção, responde: “Sei lá! Talvez ligações com a Aliança Nacional Libertadora, ligações que, no entanto, não existiam”. 

   Considerado como a vítima mais ilustre da repressão do Governo Vargas, ao que tudo indica, a prisão de Graciliano tem relação com as amizades que cultivava com pessoas que o governo considerava subversivas, como o jornalista e membro do Partido Comunista Alberto Passos Guimarães (1908-1993). 

   Durante o tempo em que ficou detido, Graciliano tomou nota de tudo o que viu e ouviu visando escrever um livro, no qual relataria aquela experiência. Certa vez, prestes a sair da Colônia Correcional Dois Rios, onde se encontrava encarcerado, mantém um diálogo com o médico e diretor da instituição onde deixa clara tal intenção:

- Levo recordações excelentes, doutor. E hei de pagar um dia a hospitalidade que os senhores me deram.
- Pagar como? - exclamou a personagem.
- Contando lá fora o que existe na Ilha Grande.
- Contando?
- Sim, doutor, escrevendo. Pondo tudo isso no papel.
O diretor suplente recuou, esbugalhou os olhos e inquiriu carrancudo:
- O senhor é jornalista?
- Não, senhor. Faço livros. Vou fazer um sobre a colônia correcional [...].
- A culpa é desses cavalos que mandam para aqui gente que sabe escrever.



   Conforme anunciado, o alagoano publicou o livro prometido, Memórias do Cárcere. A obra teve tamanha repercussão entre intelectuais, escritores e políticos que tornou o escritor um sucesso de vendas – foram vendidos cerca de 10 mil exemplares em apenas 45 dias.

A VIAGEM
“Uma vez posto em liberdade, outro tipo de luta teve que ser travada: a luta pela sobrevivência material, que se tornou possível com a produção literária em livros e jornais. Evidentemente, a experiência da prisão está refletida na sua obra, a começar pela impossibilidade de rever seu terceiro romance – Angústia – que saiu, segundo ele, com toda sorte de excessos e repetições”, revela a pesquisadora Elizabeth Ramos.

   Colaborando com a revista Cultura Política por questões financeiras, editada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do governo Vargas, de 1941 a 1944, Graciliano é criticado pelos esquerdistas - ainda que sempre tivesse preservado sua independência artística. 

    Em 1945, filia-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), cujo Comitê Central o convida a fazer uma viagem pela União Soviética, Tchecoslováquia, França e Portugal para as comemorações do 1º de maio, Dia do Trabalho. Quando retorna ao Rio de Janeiro, traz na bagagem o rascunho de alguns capítulos do que será Viagem, seu livro de crônicas sobre a temporada no exterior.

   Nele, o autor narra as impressões favoráveis e também tece críticas ao sistema político vigente na extinta União Soviética.  A publicação dos originais enfrenta alguns empecilhos, pois o PCB insiste em censurá-los. Em 1954, a obra, enfim, chega às livrarias do país.

   Ao tomar conhecimento de um informe produzido pelo PCB sobre literatura e arte, o qual pregava que uma obra de arte deveria trazer conteúdo que reverberasse os ideais comunistas, Graciliano alfinetou: “Informe? Eu gosto muito da palavra, porque informe é mesmo uma coisa informe”. A proposta de escrever um “romance panfletário” não lhe agradava. Afinal, enquanto homem, o escritor acreditava que poderia ter sua própria ideologia, mas sua literatura deveria ser livre. 

A OBRA E AS HOMENAGENS
Fabiano e sua família de retirantes, os presos de Memórias do Cárcere, o menino de Infância, João Valério, Luís da Silva, e mesmo Paulo Honório compõem uma extensa galeria de personagens inspirados em homens à margem da sociedade, excluídos, para os quais Graciliano Ramos empresta a sua voz.

   No espaço autoral por onde transitam suas personagens, literatura e experiência, vida e obra se confundem. E é a partir desse encontro que a verve política de Graciliano desponta. O romancista alagoano destacou os problemas sociopolíticos do Nordeste – os quais muitos deles presenciou, como, por exemplo, a exemplo da vida cruel dos retirantes, os resquícios de escravidão e o coronelismo – por meio de uma escrita extremamente vigorosa e crítica.

   Através de seminários, documentários, edições especiais de publicações e livros, Graciliano teve as suas trajetórias literária e política revisitadas. Ele também foi o autor homenageado na 11º Festa Literária Internacional de Paraty, evento literário considerado mais importante do país, que aconteceu no mês de julho. A programação não se debruçou apenas em sua à sua obra literária, mas também a seu legado e pensamento político.

   “Na vida política dele, tanto como prefeito de Palmeira dos Índios e depois como secretário de Educação de Alagoas, já havia uma preparação para o que seria sua ficção. (...) Hoje, as pessoas estão indo para as ruas para tentar resolvê-las. A educação, por exemplo, era central na obra dele. Havia, por um lado, os Fabianos, e por outro o discurso pomposo do poder oligárquico e patriarcal”, disse Milton Hatoum, que foi responsável pela conferência de abertura da Festa, ao jornal O Globo.

   Conforme observa a professora do curso de Letras da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Belmira Magalhães, toda a produção literária do escritor é política por denunciar as contradições do sistema, mas sem deixar de ser literatura. “Embora esteja falando do Brasil em seus escritos, especificamente, de uma realidade mais próxima à rural, ele discute questões ligadas ao gênero humano, à vida humana, só que a partir de uma realidade configurada como ele conheceu”, analisa.


Belmira Magalhães, autora da tese de doutorado intitulada “Vidas Secas: os desejos de sinha Vitória” (Foto: Michel Rios)
   Em sua última entrevista longa, publicada na Revista do Globo, o jornalista e escritor Homero Senna pergunta ao romancista alagoano se ele acredita na permanência da sua obra. E, relatou Senna, "sem que deixasse transparecer falsa modéstia, dando a impressão de que falava com absoluta sinceridade, ele respondeu: 'Não vale nada; a rigor, até já desapareceu'".

   Contrariando suas expectativas, hoje, Vidas Secas já está na 116ª edição – tornando-se, entre os livros de Graciliano Ramos, o mais vendido. Obra, que assim como as demais, perpetua a integridade política do mestre Graça. Não à toa, ele foi eleito o alagoano do século. F.R.

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CASA DE RANQUINES: UMA HISTÓRIA PARA LEMBRAR OS ESQUECIDOS


Localizada na Ladeira da Catedral, no prédio azul de número 111, a Fraternidade Casa de Ranquines, fundada pelo irmão José Maria, tem como foco ajudar pobres e moradores de rua. O texto a seguir apresenta dois personagens que, por meio da caridade, mudaram completamente o rumo de suas vidas.



Por Ana Cecília e Elayne Pontual

Abandonos, violência, fome, miséria, todas as mazelas sociais coabitam ali, na simpática casa azul no meio da ladeira. À primeira vista, apenas uma casa, mas os passantes mal sabem que nela são acolhidas solidões dos mais diversos tipos. É o porto seguro, o abraço, o conforto de toda dor, do corpo e da alma.
Há sete anos, a Fraternidade Casa de Ranquines acolhe todos aqueles que ninguém quer, que foram jogados como sujeira debaixo do tapete, os esquecidos, os invisíveis, os velhos dos hospitais, as crianças das ruas que comem lixo, os mendigos, os miseráveis. Aqueles que não têm sede só de água e nem fome só de feijão. Aqueles que têm, sobretudo, fome de amor, de carinho e de atenção. Os que não têm esperança no amanhã e nem brilho nos olhos. Encontram ali, alguém com que podem contar. Uma família.
A instituição de origem católica, fundada em 2006 pelo irmão José Maria (frei Vicentino), tem como foco o trabalho com pobres e moradores de rua. Já atendeu cerca de 70 pessoas que foram encaminhadas à clínicas de reabilitação para dependentes químicos. Outros foram ainda conduzidos para cursos profissionalizantes, retornando ao mercado de trabalho logo em seguida.  
Luciano de Araújo Alves, frei Luciano, tem 26 anos e há cinco resgata solidões na Casa de Ranquines. Descobriu sua vocação quando participava do grupo religioso dos Vicentinos que acolhia famílias carentes da região metropolitana de Maceió. Para ele, o mundo será um lugar melhor quando as pessoas pararem de desprezar o próximo, sorrirem mais, se abraçarem e se olharem nos olhos.
Nas grotas, nas ruas, no submundo onde pouca gente penetra, a fraternidade, hoje com seis religiosos, está presente, resgatando as vidas daqueles que não tem mais com quem contar. Seja no fim ou mesmo no início da vida.

                Sede da instituição, localizada na ladeira da Catedral, Centro de Maceió (Foto: Divulgação)

QUESTÃO DE ESCOLHA

Irmão Luciano, como gosta de ser chamado, tem o brilho nos olhos, daqueles que só quem encontrou seu lugar no mundo, têm.
“Eu conheço o sabor da verdadeira felicidade e ela se encontra no servir ao próximo. O que fazemos aqui deixamos de herança para os outros, o bem que semeamos aqui será deixado no ar como uma energia”, explica sorridente.
Com o riso solto, Luciano explica que as asperezas e amarguras comuns da existência não lhe impediram de disseminar a esperança, que carrega em si, por um mundo menos desigual, por um mundo de amor, dentro e fora das paredes daquela casa.
A pobreza lhe dói, mas aprendeu desde cedo sobre compaixão. Aprendeu a dividir o que não tinha, a somar, a doar a quem tivesse menos e precisasse mais. Preservou em si e compartilhou a noção de solidariedade, todos eram bem vindos ali, todos os esquecidos. Largou seu antigo mundo para servir, renunciou pai, mãe e casa; queria ser por inteiro para aqueles que viviam sob o céu estrelado, sob as nuvens negras, entregues a toda sorte. E a todo azar.
Velhos esquecidos nos hospitais, abandonados pela família, sem memória e sem futuro. Com o rosto marcado pelo tempo e alma pelas dores. Luciano lembra bem de cada um, de suas histórias e seus medos.

UM “BOM DIA” QUE FAZ A DIFERENÇA

Sem ajuda governamental, a fraternidade sobrevive de doações, de bons corações. O frei garante que nunca faltou nada, apesar das dificuldades. Uma de suas maiores tristezas é a indiferença das pessoas em relação àqueles que estão abandonados. Um universo de invisíveis. Como quem estivesse sentado na calçada pedindo esmola fosse indigno de atenção.
            Frei Luciano não perde a esperança. “Tem muita gente boa pelo mundo e os bons podem e fazem a diferença. Bondade e humildade podem ser trabalhados, basta a boa vontade de voltar os olhos para os excluídos, aqueles que o poder público parece não enxergar e que nós, com nossa cegueira voluntária, também não”, declara.
             Abraço como fonte de cura, o amor como cicatrizante de feridas, para o irmão Luciano, é o que falta. “Até existe amor, mas falta entrega. Afinal, quem não precisa de um abraço? Quem não precisa ser ouvido? Quem não precisa de um ombro amigo? Aqueles que estão na rua principalmente, já tão atormentados pelas mazelas de ordem social e carentes de afeto. Tendo muitas vezes apenas a solidão como sua companheira”.
 Luciano conta que muitos habitantes da Casa de Ranquines já relataram que suas vidas foram parcialmente transformadas por um simples bom dia. Um homem contou que certa vez estava na calçada das ruas do Centro de Maceió e alguém lhe deu um bom dia e sorriu. O homem ficou emocionado pelo simples fato de ter sido notado. Não era bem possível ter um bom dia no estado que se encontrava, mas sentiu uma espécie de felicidade por não ser mais um que estava ali e que todos fingiam não ver.
A fraternidade, além do trabalho de encaminhamento de pessoas para clínicas ou mercado de trabalho, também realiza um trabalho nas grotas de Maceió com crianças em situação de vulnerabilidade social. Os pequenos, quando identificados, são encaminhados ao Conselho Tutelar para que sejam tomadas as devidas providencias.
“Quando fazemos um trabalho, tanto com crianças quanto com os mais velhos, eles se sentem muito felizes, já que alguém demonstra se importar com eles. Gostam de sentar e conversar, às vezes nem precisam de muito, só de uns minutos de atenção”, explica Frei Luciano.  
Com lágrimas nos olhos, o frei conta uma das histórias que mais marcaram aquelas paredes.

UMA HISTÓRIA PARA LEMBRAR

Era manhã de maio e faltava alimento. Como dar de comer aos que ansiavam por aquele momento? Aquela única certeza que vinha três vezes ao dia, em um mar de incertezas que eram suas vidas.
Frei Luciano saiu desesperado pelas ruas do Centro da capital procurando ajuda, quem lhe pudesse fornecer os alimentos que precisava. Recebeu um não em todos os lugares que foi. Embora a causa fosse nobre, ninguém se dispunha a ajudar. Era preciso dinheiro e dinheiro ele não tinha. E naquela manhã de maio, Luciano chorou. Chorou como uma criança, chorou como um adulto desesperado, chorou como quem não tinha saída. Sentado no chão da cozinha implorou a Deus por misericórdia, pois tinha esgotado suas forças e não queria ver a tristeza no rosto daqueles que batiam a sua porta à procura de comida.
A campainha tocou, eram 10h50. Ele viu no portão um rapaz que pedia para conhecer a casa. Sem maiores cerimônias, o frei apresentou os quartos, a sala, os moradores.
- Você me apresentou toda a casa, mas não me levou na cozinha – disse o rapaz.
Luciano envergonhado abriu os armários, a geladeira e a dispensa:
- Como pode ver, tá faltando mistura hoje. Fui atrás, mas não consegui. Só recebi não.
- Então troque de roupa que eu vou lá comprar com você agora. Eu quero ir exatamente aos lugares onde te negaram comida – respondeu decidido.
Compraram tudo o que era preciso e na hora marcada, os portões estavam abertos, à espera de todos aqueles sorrisos. Aquele dia teve um gosto especial, teve sabor de gratidão, dos que comem e dos que alimentam.
Essa história ficou gravada nas vidas de todos da fraternidade, que apesar dos massacres do dia a dia, o bem ainda persiste, mesmo em meio aos escombros, mesmo em meio às pequenas maldades e omissões cotidianas. Esse mal rotineiro e persistente, camuflado. Esse mal, chamado indiferença.
O mundo seria melhor, ou a existência doeria um pouco menos, se fosse feito um esforço pessoal e conjunto para se colocar no lugar do outro, antes de desprezar. Se colocar na pele do outro no minuto anterior ao desprezo. Uma frase do pensador e quadrinista argentino, Quino, dita pela personagem Mafalda e que ilustra bem essa indiferença de que tanto tratamos: “E não é que neste mundo tem cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?”
Mas ainda há esperança nas pessoas, a Casa de Raquines é um retrato, a comprovação de que nem tudo está perdido, de que ainda é permitido sonhar, que fazer bem não é questão de romantismo ou idealização, fazer o bem é possível e não é tão difícil. Sabe o coração de carne? Basta ter um. E para ter um, não é necessário ser dono de nenhuma fortuna ou ocupar uma boa posição na sociedade. Basta reconhecer, no outro, a si mesmo. 
Um exemplo de reconhecimento mútuo aconteceu numa sexta-feira santa quando, através de um olhar, Luciano se viu em Ubiratan e Ubiratan, por sua vez, se encontrou em Luciano. Para entender melhor como se deu este encontro, contaremos um pouco da história do morador de rua que enfrentou moinhos de vento, assim como o fidalgo Dom Quixote. Meras alegorias de uma tempestuosa realidade, os moinhos de Ubiratan nem são moinhos, nem são dragões. Tratam-se de monstros reais, dores reais. Tão reais quanto qualquer angústia que possa nos acometer.

               Frei Luciano de Araújo Santos atua na Casa de Ranquines há cinco anos (Foto: Ana Cecília)

HERÓI DE SAIAS

Nas noites vazias de Maceió, cheio de fome e movido pelo instinto de sobrevivência, o herói alagoano veste sua poderosa fantasia e parte para a luta: Cola no corpo uma saia curtinha, monta num salto alto e na auto estima, cobre o rosto de maquiagem, sorrisos e coragem para, assim, poder garantir o pão do dia. E também o crack, sua droga favorita.
Uma pessoa “danada” como Ubiratan, apesar de não roubar ou assaltar, tem seus métodos de sobrevivência e quem quiser que diga que seu trabalho não é honesto. Aos 43 anos, dono de uma maturidade exausta, o que lhe importa mesmo é a consciência leve e a dele parece flutuar a cada gargalhada ou palavra sincera.
A fantasia de herói (ou seria heroína?), mesmo lhe atribuindo poderes que até Deus duvida, não o impede de ter medo, sequer o protege de uma dor que aperta o peito dia e noite, ardendo nos olhos e congelando cada extremidade de seu corpo. Esta dor tem nome e acomete milhares de brasileiros: Ela se chama solidão, companheira fiel e inseparável das almas injustamente classificadas como perdidas. Mas não é a mesma solidão dos melancólicos, não é uma solidão escolhida e acolhida, é a solidão dos abandonados, dos excluídos e rejeitados, muitas vezes apenas por decidirem ser eles mesmos. 

MERAS ESTATÍSTICAS

É assustador o número de pessoas como Ubiratan, empurradas diariamente no abismo da indiferença. Segundo dados do IBGE, no Censo de 2010 e pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 16,2 bilhões de brasileiros se encontram em situação de miséria, o que equivale a 8,5% da população.
 Pessoas como Ubiratan dão braçadas agoniadas, carregando seus corpos esquálidos e ofegantes para conseguir o básico. Estão todos ansiosos por alimentar o estômago e desesperados para anestesiar a mente. Sequer se dão conta de que foram cercados pelos muros de um sistema cruel que oferece migalhas em troca de vidas, converte dinheiro em felicidade e transforma honestidade em pó.
Nesse sistema, para ser considerado gente, é preciso seguir apenas duas regras básicas: A primeira é esquecer quem você é e fazer o possível para alcançar o que é considerado “perfeição”, escondendo nas profundezas da alma as fraquezas que nos tornam humanos. A segunda e última é comprar uma personalidade, montá-la de acordo com os padrões exigidos e depois fazer um leilão de si mesmo. Obviamente, quem oferecer o maior valor, ou seja, quem tiver o melhor emprego e apresentar maior estabilidade financeira, leva. Exagero? Ubiratan quem o diga!
Melhor, nós diremos por ele. Mas, deixamos claro que, depois de algumas horas ouvindo sua história, ficou evidente o quanto nossa humanidade é complexa. Durante a entrevista, Ubiratan se descobriu e redescobriu em vários momentos. Começava falando de si como se fosse o ente mais próximo, mas não demorava para que se mostrasse surpreso com o que estava falando, como se acabasse de revelar o segredo mais profundo de uma pessoa desconhecida. E, claro, quem somos para entender o universo de Ubiratan, em sua totalidade, se nem ele mesmo pode compreender? No entanto, contaremos o que ouvimos e prometemos ser o mais fiel possível às nossas impressões e à memória deste grande herói.

Ubiratan Joel Marcolino deixou as ruas e passou a distribuir esperança como um dos voluntários da instituição. (Foto: Ana Cecília)

ALMA FEMININA

              Ubiratan até que seria uma pessoa normal se as outras pessoas não insistissem tanto em dizer que ele nasceu homem. Isso deixou o menino atordoado! E homem por acaso tem passos leves, coração mole e a delicadeza de uma flor? Pois é assim que ele se sente, é assim que ele é: Nasceu mulher e aquilo que carrega por entre as pernas é meramente ilustrativo. Diferente de seu coração que, contrariando a todos, pulsante e ardente, insiste em gritar: “Você é mulher. Sim, uma m-u-l-h-e-r!”.
Ubiratan decidiu ouvir seu coração e ignorar as loucuras que inventavam sobre ele. Pena que essa atitude mudou sua vida para sempre e, aos 6 anos, o herói de saias sentiu o peso da rejeição.
Tudo começou quando o padrasto percebeu sua “delicadeza”. Diferente dos outros 10 irmãos, Ubiratan era do tipo que andava saltitando e sacudindo os quadris. Pagou caro por seus trejeitos. Desprezo, surras e castigos foram o início de uma injustiça que até hoje deixa marcas profundas, feridas abertas e alguma revolta que ele teima em esconder. Ou prefere não mexer, pra evitar uma catástrofe.
“Não sou bom da cabeça e qualquer coisa me estressa, mas não sou uma pessoa rancorosa e não gosto de gritar aos quatro cantos o que acontece de ruim comigo, nem dou nome aos que me maltrataram’, afirma.  
Começou a beber e a fumar aos 13 anos, quando descobriu que aquele homem, motivo de tanta desgraça em sua vida, sequer era seu pai de sangue. Não suportando a última grande surra que levou, decidiu fugir de casa e, para manter seu sustento, foi ganhar a vida num cabaré localizado no bairro do Canaã.
As drogas, depois das atitudes de seu padrasto, são sua maior perdição. Até hoje, e seus cabelos brancos são testemunhas disso, esses dois elementos o fazem dar passos em falso e quebrar a cara em quedas homéricas. Difícil é imaginar onde ele consegue tanta força para se reerguer. Que fio invisível suporta um corpo já tão enfraquecido, junto ao peso de uma mente perturbada e uma alma em choque? São atitudes que vão além da nossa compreensão.
Aos 18 anos, Ubiratan foi procurado pela mãe que, arrependida, queria oferecer uma vida digna ao filho. Ele trocaria as noites na “casa de amor” por dias inteiros em um salão de beleza. Trocaria calcinhas sexys por um avental, camisinhas por luvas, pesadelos por esperança. Tudo parecia encaminhá-lo ao paraíso quando a vida resolveu lhe pregar uma grande peça, arrancando de seus braços o escudo protetor, alguém que foi capaz de reconhecer as próprias falhas, lutar contra o preconceito e contra qualquer um que tentasse machucá-lo. A mãe de Ubiratan faleceu levando com ela todos os sonhos onde as águas eram mais límpidas e calmas, a tempestade era brisa, a indiferença zelo, e a brutalidade delicadeza. 
Passado algum tempo, seu padrasto faleceu, deixando para Ubiratan cada parede da casa que escondeu do mundo as agressões físicas e verbais investidas contra ele. Cada metro quadrado de chão onde Ubiratan corria para fugir da dor. Ubiratan herdou então todas as noites de lágrimas e pensamentos confusos sobre o porquê de tanta violência e incompreensão. Naquele lugar, as lembranças ficaram tão vivas que ele quase pôde sentir arder no corpo o impacto de tudo que ali o atingiu. E o feriu. Não suportou. Vendeu a casa e gastou todo o dinheiro com drogas.

SANTA SEXTA-FEIRA

Sem abrigo, foi morar na rua. Se fosse possível, vendia também as calçadas e paredes imundas das praças e becos de Maceió para alimentar o vício no crack. Mas a rua não tem dono e nela ninguém é de ninguém. E é aí que mora o perigo. Além da fome e solidão, a vulnerabilidade. Entregue aos riscos e ameaças, Ubiratan passou por situações de quase morte: Já levou quatro facadas e certa vez caiu, drogado, de uma cisterna de 45 metros de altura, além da queda de uma moto que deixou como herança um nariz torto. “Falta levar tiro. Mas isso não vai acontecer, se Deus quiser”, brinca.
Ubiratan gosta do nome “Deus” porque consegue, mesmo depois de tantas aprovações, achar mais motivos para acreditar do que para duvidar. E a explicação está na já mencionada sexta-feira santa, quando, vagando pelos entornos da Praça dos Martírios, no Centro da cidade, encontrou e foi encontrado por Luciano de Araújo Alves, o frei Luciano, do começo de nossa história. Lembram?
Bastou um olhar, para que Luciano reconhecesse as feridas causadas pela indiferença. De tanto conviver com os abandonados, o frei sabe identificar facilmente as vítimas da desigualdade, sem precisar observar as camada de sujeira que os cobre ou se incomodar com o mal cheiro que exalam. Parece fácil, mas esse olhar não é o mesmo de quem passa e apenas olha. É o olhar de quem vê, de quem enxerga e sem palavra diz que compreende, mostra que ali tem alguém igual.
Durante muito tempo Ubiratan acreditou que a humanidade já não exista. Através do olhar de Luciano, ele reconheceu em si e no próximo o afeto e a benevolência. Sepultou-se com sua mãe, mas ressuscitou naquela sexta-feira santa. 
Há dois meses sem ingerir bebidas alcoólicas ou qualquer outra droga (ele garante!), o ex-morador de rua Ubiratan Joel Marcolino da Silva reside atualmente na Casa de Ranquines. Lá, ele auxilia o Frei Luciano no trabalho de apoio a moradores de rua, servindo em média 200 refeições por dia, dentre café da manhã, almoço e jantar, para cerca de 208 desabrigados. Lá, ele oferece aos outros o que durante muito tempo não teve para si, lá ele divide a esperança que conquistou com muito esforço. Ubiratan agora é um exemplo a ser seguido. 

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O SABOR DA SUSTENTABILIDADE


O médico e empresário alagoano Lenildo Amorim viu nas suas terras, em Junqueiro, a oportunidade de desenvolver um negócio baseado no modelo sustentável. Em 2003, fundou a Brejo dos Bois, empresa que produz cachaça e mel de engenho orgânico. Mas não parou por aí.  Ele buscou promover ações de conscientização entre os funcionários, parentes e moradores das comunidades ao redor da propriedade com o propósito de sensibilizá-los sobre a importância da preservação do meio ambiente, através de práticas sustentáveis

Por Elayne Pontual e Francisco Ribeiro

Ela compõe o estoque de bebidas de qualquer boteco, barzinho ou restaurante de norte a sul do País. Mas também pudera. Com mais de 500 anos, a queridinha do Brasil já foi adotada pelo imaginário popular, sendo inserida em letras de músicas, na literatura e até no cinema. Nesse último, ela acabou sendo personagem principal de um documentário cuja proposta era contar a sua longa história.

Ainda não conseguiu descobrir qual bebida é essa? Lá vão mais duas dicas: é obtida com a destilação do caldo de cana de cana-de-açúcar fermentado e é usada na tradicional receita do coquetel mais apreciado pelo paladar dos brasileiros e estrangeiros, a caipirinha.

Agora ficou fácil, não é?

Conhecido como cachaça, ela ganhou diversos apelidos como pinga, cana ou canha, nomes dados à aguardente de cana, uma bebida alcoólica tipicamente brasileira.

Contando com meio século de história, o processo de fabricação da cachaça se manteve basicamente o mesmo.  Até o momento em que o médico alagoano Lenildo Amorim da Silva, 50, teve a ideia de produzir uma cachaça sustentável, na Fazenda Brejo dos Bois, em Junqueiro.

Médico com visão empreendedora,Lenildo Amorim da Silva inovou ao buscar aliar sustentabilidade na fabricação dos produtos da Brejo dos Bois (Foto: Divulgação) 
Batizado com o mesmo nome da sua propriedade, a Brejo dos Bois é o primeiro empreendimento do Estado a fabricar produtos orgânicos derivados da cana de açúcar, a exemplo da aguardente de cana (cachaça tradicional, envelhecida e com mel) e mel de engenho.

Conforme rememora Lenildo, a decisão de investir no reflorestamento e na produção orgânica de cana veio quando ele notou que a lógica cruel do desmatamento sem controle, para aumentar a área de produção, estava secando as fontes de água.

“Na época, tinha uma propriedade na cidade de Junqueiro sendo usada apenas para pastagem e campo de vaquejada. Então, decidi produzir algo nessas terras, pois a região oferecia condições climáticas favoráveis ao cultivo de cana de açúcar, mas usando mecanismos que não gerassem tanto danos ao meio ambiente”, conta.

O apoio do Sebrae foi crucial para o empresário descobrir diferentes formas de agregar valor a futura produção. A opção que mais lhe encheu os olhos foi a fabricação sustentável da cachaça e derivados, a exemplo do mel e da rapadura.

Máquinas do processo de produção da cachaça (Foto: Divulgação)
Em 2003, Lenildo abriu a empresa e, desde então, o negócio vem apresentando bons lucros. Segundo ele, atualmente, são produzidas sete toneladas de mel e 30 mil litros de cachaça por ano. Deste total, 95% são distribuídos para Alagoas, “o restante vai para o resto do Brasil”, conta.

A cachaça é produzida em dez hectares de terra, sem nenhuma utilização de agrotóxicos. A colheita manual é realizada nos meses de outubro a fevereiro, sem incendiar a plantação. “Para que a cana não vá ficando ácida e estrague o seu sabor é necessário evitar a exposição demorada ao sol”, revela o proprietário.

O conjunto dessas ações trouxe para a empresa o selo de certificação orgânica concedido pelo Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento Rural (IBD), que atesta os preceitos da produção agroecológica.


Segundo Lenildo, a classe A e B são os maiores compradores de seus produtos. “Fabricarmos produtos sustentáveis agrega valor à marca, o que torna a cachaça feita pela empresa diferente das demais existentes nesse mercado”, afirma.

Preservação ambiental aliada a ações sociais

A empresa alagoana além de ter como preocupação a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente, também envolve todos os colaboradores, familiares e pessoas do entorno da região a zelar pela mata nativa, praticar o reflorestamento e preservar seus mananciais.

Sustentabilidade comprovada: os produtos da Brejo dos Bois possuem certificação orgânica e seguem as normas do IBD (Foto: Divulgação)
Até o ano passado foram plantadas 10 mil árvores nativas de Mata Atlântica, como a maçaranduba, pau-brasil, ipê roxo, ipê amarelo, ipê branco, canafístola, e frutíferas, além do cajueiro, jaqueira e mangueira. “O reflorestamento recuperou as fontes de água, cujo líquido usado na produção vem dessas nascentes”, diz.

Em 2007, contando com o apoio da prefeitura de Junqueiro, foi dado início a um projeto que visava inserir a comunidade local em sua propriedade. Já em 2012, foi implantada uma horta educativa no local para o fornecimento de hortaliças orgânicas. A produção é repassada para três escolas localizadas no município e usadas na merenda dos alunos.

A Brejo dos Bois, portanto, ultrapassa a prática sustentável, ao desenvolver trabalhos sociais com a comunidade que vive ao redor da propriedade.

“Buscamos estimular a preservação de reservas florestais e a prevenção ao desperdício dos recursos naturais. Além disso, realizarmos na empresa campanhas internas sobre a importância da sustentabilidade e do cuidado com o meio ambiente”, garante Lenildo. E.P.|F.R.

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RONA SILVA: A ESCOLHA PELO ECODESIGN E A IDENTIDADE CULTURAL ALAGOANA


Com o talento de perceber múltiplas possibilidades para a reutilisação do lixo, o designer alagoano Ronaldo Edson da Silva explora formas arrojadas e mecanismos criativos para criar objetos úteis, ecologicamente corretos e super práticos no dia-a-dia. Mas, suas obras se destacam, sobretudo, pela presença de elementos que remetem as manifestações populares que presenciou durante a infância. Sua memória afetiva dá contorno e textura às suas criações, atribuindo ao lixo o status de arte. Mesmo assim, Rona é pouco conhecido em sua terra natal

Por Francisco Ribeiro e Elayne Pontual

O termo design sustentável é recente, surgiu em meados da década de 1990, e desde então vem despontando no mercado mundial como uma saída para a redução do consumo de matéria-prima, de energia e do lixo gerado por meio da fabricação de um produto até o seu descarte.

Com possibilidades diversas, a proposta do ecodesign – como também é denominado essa vertente do design – foi introduzida no trabalho de artistas e profissionais da área, cujo conceito é norteado também pela preocupação em traçar novos caminhos na defesa do uso de materiais locais e na reflexão sobre a identidade.

Influenciado por tal perspectiva, o designer de produtos e professor universitário Rona Silva, 53, adotou o conceito em seus trabalhos e vem ganhando cada vez mais a projeção dentro e fora do País – ainda que para ele a atividade seja também um “hobby”.

À frente do Studio Carapanã Design, Rona converteu sobras de papelão em mobiliário, luminárias e objetos decorativos para residências (Foto: Divulgação)

“Minhas criações surgem de uma atividade que gosto muito de fazer nas horas vagas e serve como pesquisa de ecodesign e sustentabilidade. Os resultados dos experimentos são empregados nos produtos artesanais e nas aulas que ministro”, disse.

O alagoano expôs na Bienal Brasileira do Design, em 2010. No ano passado, os europeus puderam conferir suas peças numa mostra de design brasileiro, em Amsterdã.

À frente do Studio Carapanã Design, Rona lançou as coleções AGUUU! e Par de Jarros. Ele converteu sobras de papelão em mobiliário, luminárias e objetos decorativos para residências. Sua inspiração vem das festas populares nordestinas, do estilista japonês Kenzo Takada e da teoria do caos, cuja máxima “há ordem na desordem e desordem na ordem” encontra respaldo nas diferentes texturas presentes em suas obras, que fazem surgir uma inesperada harmonia.

Como começou

Enquanto seus quatro irmãos iam jogar bola nas ruas pacatas do município de Murici, Rona Silva ficava em casa, recolhendo descartes para montar seus brinquedos. Aos 6 anos de idade, ele descobriu a técnica ideal para a confecção de aviões, carrinhos, entre outros objetos, que perduraria até hoje: o corte, a dobra, a cola e o encaixe.

As manifestações populares que presenciou ainda garoto também permaneceriam presentes em suas lembranças, compondo parte de sua memória afetiva e que mais tarde daria contorno e textura às suas obras.

Mas foi somente na fase adulta, com a passagem pelos cursos de Mecânica do Ifal (antiga Escola Técnica Federal de Alagoas), de Engenharia Mecânica da Universidade Federal da Paraíba e de Desenhos Industrial na Universidade Federal de Campina Grande, que Rona trouxe à tona todo repertório adquirido durante a infância.

“O conceito ‘do it yourself!’ [em português: faça você mesmo!] ganhou uma dimensão muito importante na construção de minhas criações. Isso se deu de tal maneira que todo meu trabalho pode ser feito de forma manual, semi-industrial, industrial e não necessita de ferramenta para montar”, disse o alagoano, explicando em seguida os passos que levaram suas coleções a ganharem reconhecimento nacional e internacional.

Papelões encaixados dão origem a cadeiras resistentes (Foto: Divulgação)

“Em 2009, criei meu blog, Carapanã Design, incentivado pelos amigos e pelos alunos. Lá, publiquei algumas fotos das minhas peças. Depois de certo tempo, comecei a receber ligações de editores de revistas, pessoas ligadas à moda e empresas de móveis, de todo o país, interessadas no produto”, contou.

Do que é feito?

A matéria-prima para a composição de seus trabalhos veio, principalmente, do lixo do prédio onde mora e tecidos coletados em ateliês ou, em alguns casos, adquiridos em lojas populares do centro de Maceió.

“Certo dia, recebi uma visita especial em meu apartamento: era o estilista Fernando Perdigão. Ele viu no chão uma cobra feita com tampas de garrafas de refrigerante e ficou bastante interessado no produto. 

Tamborete Cabelo, uma das criações do alagoano Rona (Foto: Divulgação)

Recentemente, fui convidado por ele para desenvolver uma linha de acessórios para compor as peças do desfile realizado no TrendHouse e usei como base esse mesmo conceito e, também, a matéria-prima”, rememora.

O resultado do trabalho irá compor a coleção Cobra Grande, que está em finalização.

Depois de várias idas e vindas a Alagoas, Rona continuou encontrando dificuldades para produzir suas peças no Estado. “Já recebi convite da Micasa, uma das mais importantes lojas de móveis do País, para produzir uma grande quantidade de Poltronas Matuta, mas por conta da dificuldade em encontrar matéria-prima suficiente e mão-de-obra, tive que deixar de lado a proposta. Pelo menos, nesse momento. Além disso, quase não há incentivo do governo para o design local”, observou.

Apesar das adversidades, o Rona não desanima e permanece em busca de diferentes matérias-primas para sua nova coleção.

“Estou pesquisando sobre os roletes de cana, especificamente o palito que é usado para espetar os pedaços de cana. Ele se assemelha a estrutura de mobiliário. Provavelmente, irei lançar uma coleção com objetos feitos desse material. Sempre inserindo neles elementos vindos da minha memória afetiva e das manifestações populares que presenciei em Alagoas”, afirmou.

Pesquisa acadêmica

Rona não é o único alagoano a se interessar por design sustentável. A aluna do curso tecnológico de Design de Interiores, do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), Ingrid Nicácio Ferreira, defendeu seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em 2011, intitulado “Uma discussão do design sustentável: proposta experimental para mobiliário com tubos de papelão”. O trabalho segue o princípio do ecodesign, propondo a discussão sobre a sustentabilidade, através da reutilização de materiais descartados na natureza.

Ingrid fez parte do Núcleo de Pesquisa em Design (NPDesign), trabalhando com a professora e pesquisadora Áurea Rapôso no projeto MobPET, que busca reflexões a cerca de mobiliários com garrafas pet. Foi através do MobPET que a aluna não só pensou seu TCC como imaginou um novo projeto, desta vez inspirado em mobiliários construídos com papelão, o MobPAPER.

“A Ingrid tem um perfil diferenciado. Ela faz parte daquele grupo de alunos que não se interessam apenas pelo diploma, mas que buscam também a extensão e a pesquisa”, revela Áurea.

A ex aluna de Áurea ainda fez parte de oficinas e cursos voltados para a comunidade, um deles foi realizado na Vila Emater II, antiga favela do Lixão de Alagoas. Os projetos MobPET e MobPAPER resultaram em diversos trabalhos científicos, nacionais e internacionais, e estão disponibilizados gratuitamente na internet.

Uma das questões mais discutidas na Banca Examinadora foi a lógica de consumo da sociedade atual. “Não são as pessoas, individualmente, que vão dar um fim aos problemas ambientais. Há todo um sistema de ações e de atores, como os produtores, as empresas e os designers. Todos estão interligados”.

“Se todos não repensam essa questão da lógica do consumo, a gente fica sem possibilidades de ponderar um futuro promissor para a habitação nesse planeta. Projetos desse tipo são interessantes para que os seres humanos reflitam um pouco sobre questões que estão relacionadas à nossa época”, esclareceu a professora.

Uma função importante do projeto apresentado por Ingrid é a disseminação e divulgação no ambiente acadêmico. “Eu vejo o TCC da Ingrid como um trabalho que pode vir a ter um efeito multiplicador positivo no âmbito acadêmico do Ifal e de outras Instituições locais, ou até mesmo contribuir nacionalmente para essa discussão”, afirmou Áurea.

Segundo a professora, a academia enfrenta uma carência de estudos específicos que abordem a relação da sustentabilidade com o Design, com as cadeias produtivas, com o produto, o consumo e o mercado.

A principal contribuição que pessoas como Ronan e Ingrid oferecem à sociedade, é a refleção sobre a politização das práticas que são feitas por todos os agentes, que não se resume ao design, mas a toda sociedade que compra, consome e gera demandas. Além dos empresários, dos distribuidores e dos fornecedores que alimentam a cadeia de produção.

Para Áurea, “o trabalho destes alagoanos traz à tona temáticas atuais que ajudam na modificação do pensamento e da conduta em relação aos recursos e ao espaço de habitação que nós ainda temos”. E.P.|F.R.